Na mesma ‘caixa’, em primeiro, a notícia do ranking; em segundo, a explicação do Reitor da UC; em terceiro, a opinião do presidente do CG da UC; em quarto o Ranking de Xangai (Academic Ranking of World Universities)

 

PRIMEIRO (Jornal Publico, 20180815) – Universidade de Coimbra deixa de estar entre as 500 “melhores” do mundo

Resultados do chamado ranking de Xangai já são conhecidos. Em relação a 2017 há poucas mudanças a assinalar e uma delas diz respeito a Portugal.

Bastaram nove décimas para a Universidade de Coimbra saltar fora do chamado “ranking de Xangai”, que anualmente apresenta o que considera serem as 500 melhores universidades do mundo. Os resultados de 2018 desta lista, que oficialmente se chama Academic Ranking of World Universities (ARWU), foram conhecidos nesta terça-feira.

Nos primeiros dez lugares mantêm-se as mesmas universidades que ocupavam estas posições em 2017. Oito são dos Estados Unidos e duas do Reino Unido. A lista é encabeçada pela Universidade de Harvard, como, aliás, tem acontecido desde 2003, altura em que este ranking começou a ser feito.

Também as quatro universidades portuguesas que permanecem na lista das 500 “melhores” (Lisboa, Porto, Aveiro e Minho) mantêm a mesma posição do ano passado. A surpresa foi Coimbra, que entrou neste ranking em 2013 e agora ficou de fora.

Para a avaliação feita pela empresa de consultoria ShanghaiRanking Consultancy contam, entre outros factores, o número de antigos alunos e de professores contemplados com o prémio Nobel ou com as medalhas Fields, respeitantes à investigação em matemática, o número de artigos publicados nas revistas Nature e Science, o número de citações de artigos científicos de investigadores das universidades e o desempenho per capita da universidade em todos estes indicadores.

em, https://www.publico.pt/2018/08/15/sociedade/noticia/universidade-de-coimbra-deixa-de-estar-entre-as-500-melhores-do-mundo-1841100

 

SEGUNDO (João Gabriel Silva, UC, 20180822) – Ranking de Xangai: A produção científica da Universidade de Coimbra está hoje mais próxima do topo e não mais afastada

Foi notícia na semana passada o facto de a Universidade de Coimbra (UC) ter ficado abaixo da posição 500 no Academic Ranking of World Universities – ARWU, mais conhecido por ranking de Xangai (http://www.shanghairanking.com/). Com efeito, ficou no intervalo 501-600, mais concretamente na posição 512. Embora este resultado seja contrariado por muitos outros indicadores bem mais positivos que têm vindo a público, importa analisar este caso com cuidado.

Diga-se, em primeiro lugar, que esta descida se revela paradoxal, pois o próprio ranking mostra que, em termos de produção científica global, a UC se está a aproximar, e não a afastar, da universidade que está na primeira posição (Harvard). É também paradoxal porque, em julho passado, quando a mesma instituição divulgou os resultados dos rankings por áreas científicas ( http://www.shanghairanking.com/Shanghairanking-Subject-Rankings/index.html) a Universidade de Coimbra teve uma enorme subida. Passou a estar presentes nos rankings de 31 áreas, de um total de 54, quando em 2017 só estava em 19. A UC ficou nos primeiros 100 do mundo em cinco áreas: Telecommunication Engineering, Instruments Science & Technology, Civil Engineering, Transportation Science & Technology, Remote sensing. Ficou nos primeiros duzentos do mundo em Pharmacy & Pharmaceutical Sciences, Electrical & Electronic Engineering, Computer Science & Engineering, Automation & Control.

Em Portugal, a UC ficou em primeira posição isolada em Telecommunication Engineering, Computer Science & Engineering, Transportation Science & Technology, e em primeiro lugar empatados em Instruments Science & Technology, Human Biological Sciences e Medical Technology. Na maioria das outras áreas, ficou em segundo ou terceiro lugar.

Para perceber este paradoxo é necessário compreender a metodologia seguida no ARWU, que pode ser consultada em http://www.shanghairanking.com/ARWU-Methodology-2018.html. Tem seis critérios:

– 10% em função dos antigos alunos com prémio Nobel ou medalha Fields. Nenhuma universidade portuguesa tem qualquer pontuação neste critério.

– 20% em função dos investigadores que receberam um prémio Nobel ou medalha Field. Só a Universidade de Lisboa (UL) tem pontos neste item, graças ao Prof. Egas Moniz, que obteve o Prémio Nobel em 1949 quando era professor nessa universidade.

– 20% em função dos professores da instituição que estão nos 1% mais citados da sua área de acordo com a Clarivate (Highly Cited Researchers – https://clarivate.com/hcr/). Os professores de universidades portuguesas presentes nesta lista são poucos: um da Universidade de Lisboa, um da Universidade de Aveiro, um da Universidade do Minho, e duas do Politécnico de Bragança. A Universidade de Coimbra não tem nenhum, tal como a Universidade do Porto.

– 20% em função do número de artigos nas revistas Nature e na Science, e do tipo de autoria nesses artigos. O número de artigos com participação de professores de universidades portuguesas nestas revistas tem sido baixo; foi neste indicador que se deu a descida da UC. Em 2012 a UC participou em quatro artigos, um número bom, pois em regra participa em 1 a 3 por ano. Foi graças a esse valor que a UC subiu acima da posição 500 do ranking em 2013. A descida da UC neste ano deve-se essencialmente ao facto de as publicações de 2012 terem deixado de ser contabilizadas, pois neste indicador só são tidos em conta os últimos cinco anos.

– 20% em função dos artigos em revista indexados no Science Citation Index (concretamente o Science Citation Index-expanded e o Social Science Citation Index). Neste indicador a UC tem vindo a subir sucessivamente, e voltou a fazê-lo este ano.

– 10% em função da produtividade média dos professores da instituição. Para as instituições portugueses este indicador não é calculado pelos produtores do ranking, sendo obtido por média pesada dos outros indicadores, pelo que não tem significado.

No resultado final, na escala de 0 a 100 usada no ranking, a UC ficou a apenas 12 centésimas da posição 499. Desceu 9 centésimas em relação ao ano passado. Estes dados parecem contraditórios: de facto, mesmo com a pontuação do ano passado, já teria ficado abaixo da posição 500 se tivesse prevalecido o quadro do presente ano. Aliás, a UC está agora com mais 63 centésimas do que em 2013, quando subiu pela primeira vez acima do patamar dos 500. Isto significa que todos os anos os patamares têm vindo a ser mais exigentes, muito graças à subida que tem vindo a ser conseguida por instituições de outras geografias, em particular da Ásia.

No caso de Portugal, a UL está à frente da UC porque tem o prémio Nobel já mencionado, tem um investigador no Highly Cited Researchers, e tem mais artigos quer nas revistas Nature e Science quer no Science Citation Index. A Universidade do Porto, por seu turno, surge à frente da UC porque tem mais artigos na Nature na Science e no Science Citation Index. Acresce ainda o facto de o indicador da produtividade média não ser usado para Portugal. Nestes termos, as universidades de maior dimensão são sempre beneficiadas.

As Universidades do Minho e de Aveiro têm menor produção científica que a UC, mas conseguem ficar acima da posição 500 graças ao investigador que figura nos Highly Cited Researchers. Abaixo da posição 500 e até à posição 1000 só há mais uma instituição portuguesa: a Universidade Nova de Lisboa, na posição 578.

Em termos gerais, a produção científica da UC tem vindo a aumentar. Concretamente, no indicador de artigos no Science Citation Index a nossa pontuação tem evoluído bem, de 32,5 em 2013 para 34,4 em 2018, o seu valor mais alto de sempre. Esta subida tem ainda mais significado se tivermos em conta que os indicadores do ranking de Xangai são calculados como uma fração da instituição colocada em primeiro lugar nesse item, que este ano é a Universidade de Harvard. Isso significa que a UC se está a aproximar de Harvard, não a afastar-se.

Esta análise mostra também que os diversos rankings, mesmo os produzidos pela mesma organização, como é o caso, têm frequentemente resultados bem díspares. Esse efeito é ainda mais acentuado entre rankings de organizações diferentes.

Para melhorar o seu desempenho a UC está a seguir uma forte política de mérito em todos os concursos, seja de entrada seja de progressão, de melhoria contínua do seu funcionamento, e a reforçar a sua condição de universidade global. É isso que vai continuar a fazer.

em, http://noticias.uc.pt/universo-uc/ranking-de-xangai-a-producao-cientifica-da-universidade-de-coimbra-esta-hoje-mais-proxima-do-topo-e-nao-mais-afastada/

 

TERCEIRO (João Caraça, Jornal Público, 20180823) – Para quê os rankings?

Será que a saída da Universidade de Coimbra do lote dos 500 do ranking de Xangai tem algum significado mais profundo? Penso que não, que a saída tem tanto significado como a entrada. O longo prazo começa hoje, mas não termina amanhã. Precisa de muita vontade e empenho. É esse esforço que o determinará.

Noticiou o Público na sua edição de quarta-feira 15 de agosto que a Universidade de Coimbra deixar de estar no “ranking de Xangai”. É claro que não gostamos dos rankings que nos colocam na cauda do pelotão. Mas sempre apreciamos (por vezes, secretamente) aqueles que nos distinguem, mesmo que seja no meio de uma mêlée. A questão principal, porém, não é a de se gostar, ou não gostar deles: é a de saber para que (e para quem) servem os rankings.

Em 2010/2011 apoiou a Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com a Fundação Bosch, um estudo da European University Association (EUA) sobre rankings universitários globais e seus impactos. O estudo foi apresentado publicamente em junho de 2011, perante 150 representantes de instituições académicas, membros da EUA e jornalistas. As conclusões foram claras e perceptíveis: os rankings vieram para ficar (com o mercado universitário global em expansão); funcionam para produzir uma seriação (como num campeonato); são instrumentos de “transparência” (ficando por demonstrar que sem rankings as instituições académicas perderão a “transparência”); os resultados discriminam bem os primeiros 10% das instituições analisadas (que se espraiam por dois terços do valor do indicador global, ao passo que os outros 90% da amostra se acumulam no terço restante).

Os rankings servem para se possuir um instrumento de negócio (no mercado global, ou nas suas bolsas) ou de poder (para as potências emergentes). Para isso os rankings têm de ser “credíveis”, isto é, de existir desde há um tempo considerável, para se poderem usar como defesa ou ataque quando forem precisos. No caso do “ranking de Xangai”, o ARWU, o objectivo é claramente uma estratégia de comparação com as research universities americanas no longo prazo (um campeonato pelo qual a velha Europa infelizmente não parece interessar-se, tendo em conta os problemas que aparentemente a preocupam).

Teremos nós uma estratégia de desenvolvimento coerente com vista ao futuro? Ou inconfessadas ambições de liderança? A resposta afirmativa parece fugir… a partir daqui, o ranking de Xangai só interessa para 50 universidades (os primeiros 10% da amostra). Quanto às restantes, o ordenamento torna-se quase caótico. Que sentido faz cortar a selecção a partir das 500 universidades (3% do total das universidades no mundo) ou das 700 (4% do total)? Sabemos bem que que os rankings não são fundamentais nos critérios de escolha dos estudantes no caso de universidades que não se encontram no escol das primeiras 50: os jovens brilhantes que procuram inscrever-se em universidades que ocupam o lugar 100, ou 200, ou 500, fazem-no certamente por outras causas, para eles mais importantes.

Mais do que olhar os resultados dos rankings, importa definir e desenvolver uma estratégia para o futuro em que a investigação caminhe a par do ensino como nas melhores universidades de investigação do mundo. É esta atitude de investimento no conhecimento, esta cultura de acção, este acreditar no futuro, que fará a diferença. Face a isto, será que a saída da Universidade de Coimbra do lote dos 500 do ranking de Xangai tem algum significado mais profundo? Penso que não, que a saída tem tanto significado como a entrada. O longo prazo começa hoje, mas não termina amanhã. Precisa de muita vontade e empenho. É esse esforço que o determinará.

em, https://www.publico.pt/2018/08/23/sociedade/opiniao/para-que-os-rankings-1841756

 

QUARTO – O Ranking de Xangai pode ser consultado em, https://www.shanghairanking.com

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