Por Marta Poiares e Pedro Dias da Silva

A poucos dias do final do seu reitorado, Fernando Seabra Santos, figura máxima da Universidade de Coimbra (UC), faz um balanço dos dois mandatos à frente desta secular instituição de ensino superior. Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC foi eleito reitor em 2003 e reeleito em 2007, tendo igualmente ocupado a presidência do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), entre 2007 e 2010. Abordando algumas das questões mais significativas dos últimos oito anos admite que, no futuro, nada lhe poderá dar mais “honra e prazer” do que ter estado à frente da instituição UC, garantindo que o seu sucessor irá encontrar uma “universidade forte e moderna”, que poderá sempre ambicionar “chegar a novos patamares”.

Ao longo dos seus mandatos, uma das maiores transformações operadas foi a inevitável reorganização do processo formativo imposta pelo Processo de Bolonha. Em entrevista recente ao jornal “As Beiras”, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos dizia que “a adaptação ao processo de Bolonha deu-se nas piores condições, com pouca visão estratégica e sem capacidade para transformar o nosso único recurso – o facto de sermos uma das mais antigas universidades da Europa – numa alavanca de transformação da tradição em inovação”. De que forma é que se posiciona perante estas afirmações?

Nesta matéria, a evolução foi muito forte em Coimbra, nomeadamente com evoluções significativas nas três direcções de desenvolvimento que, em termos internacionais, foram definidas como prioritárias: a Europa, a bacia do Mediterrâneo e o espaço da lusofonia.
Entendo que nos últimos anos demos passos muito importantes e concretizámos, efectivamente, orientações que colocam a UC numa espécie de pilar duma ponte transatlântica entre a Europa e a América do Sul, nomeadamente o Brasil e outros países da lusofonia, o que, de certa forma, significa que estamos a conseguir aproveitar o momento de transformação do Processo de Bolonha para, precisamente, tirar partido das nossas especificidades e posição no mundo. O Processo de Bolonha é uma das iniciativas mais complexas e multifacetadas que me foi dado acompanhar nestes anos. Parte da ideia, que só posso considerar justa, de que é necessário juntar uma dimensão cultural e educativa à Europa dos mercados e das finanças, através da construção do chamado Espaço Europeu de Ensino Superior. Do meu ponto de vista, a percepção desta necessidade e a definição deste objectivo radica na constatação de que a construção de uma sociedade do conhecimento capaz de competir no mercado global requer a criação de escala não apenas em termos empresariais, mas em todo o edifício que conduz à produção de riqueza. E esse edifício, como é hoje reconhecido, começa nas universidades e nas instituições de investigação. O Espaço Europeu de Ensino Superior é, portanto, uma componente dessa estratégia que visa conferir dimensão europeia ao processo de criação de riqueza, considerado no seu conjunto. É curioso constatar que, tendo sido a Europa a liderar este processo de internacionalização universitária, porque se procurou encontrar à escala de um continente a dimensão que não existia, de per se, em nenhum destes países, o caminho está a ser seguido, por idênticas razões, na América Latina, o que abre oportunidades fabulosas às Universidades ibéricas e, muito em particular, à UC. Far-se-á a justiça de constatar que a nossa Universidade teve consciência desse facto e de que o está a aproveitar da melhor maneira. Dito isto, realço que o Processo de Bolonha é muito aquilo que quisermos, ou pudermos, fazer com ele. Reconheço que tem ficado, em algumas matérias, aquém das expectativas. Os governos consideram que está praticamente terminado mas, de uma forma geral, as universidades consideram que está apenas no começo e, entre estas duas visões do problema, há-de ser possível, talvez nas próximas dezenas de anos, evoluir no sentido de aproveitar estas oportunidades para transformar o sistema de educação superior. Aplica-se também aqui a percepção a que me referia, nesta mais recente cerimónia de Abertura Solene das Aulas, de sempre incompleta plenitude em torno da definição de Universidade, que por definição estará sempre desactualizada, e à qual poderemos estender com propriedade uma expressão utilizada num outro contexto: uma Universidade que só procura ser Universidade, nunca chegará verdadeiramente a sê-lo. É nesta perspectiva que compreendo e acompanho a reflexão do Doutor Boaventura de Sousa Santos.

Enquanto reitor foi sempre lançando alertas relativamente à forma como a tutela lidou com o ensino superior, chegando mesmo em 2009, no discurso que proferiu na cerimónia de abertura do novo ano lectivo na UC, a apresentar um caderno de encargos com seis pontos que preocupavam as instituições de ensino superior: o ordenamento da oferta educativa, a racionalização da rede de instituições, a política de financiamento, a clarificação do conceito de autonomia, a revitalização do processo de avaliação e a maior aproximação entre o sistema universitário e o científico. Passado um ano quais os resultados práticos desse apelo?

Fiz esse apelo na dupla qualidade de reitor da UC e de presidente do CRUP, que então era. Constato com muito agrado que, em boa medida – e não digo que tenha sido apenas pelos meus alertas, mas talvez eles tenham contribuído –, alguns desses pontos estão a ser trabalhados pelo governo. A avaliação, depois de quatro ou cinco anos de paragem, está finalmente a dar passos seguros com a concretização de acreditações e avaliações preliminares de vários milhares de cursos. Por seu turno, o tempo vai dando esclarecimentos sobre a interpretação que o governo tem do conceito de autonomia universitária. Uma das questões fundamentais é hoje a de sabermos exactamente quais são as vantagens e os inconvenientes de sermos, eventualmente, uma fundação pública de direito privado. Quanto à aproximação entre o sistema universitário e o científico, constato com prazer que a tutela tem tido uma postura mais equilibrada nesta matéria, nomeadamente no apoio e atenção que tem dado ao sistema universitário e às instituições de ensino superior, em particular, às universidades. Vejo contudo com alguma preocupação que, por exemplo, matérias como a racionalização da rede e o ordenamento da oferta educativa não tenham sido, ainda, convenientemente tratadas. Mas, enfim, se quisermos ser optimistas podemos sempre dizer que não se pode fazer tudo ao mesmo tempo e que, quando surgir a oportunidade, este governo ou um outro, há-de também pegar nestes aspectos.

Embora tenha já defendido em várias ocasiões que o orçamento não é tudo, a falta de financiamento parece continuar a ser o principal entrave ao desenvolvimento do ensino superior. Sem uma dotação orçamental capaz é complicado gerir uma instituição tão complexa como a UC…

Devo ter cuidado ao falar desta questão pois, com muita frequência, uma palavra que diga sobre orçamento é transformada e empolada de tal forma que parece que só falo de questões financeiras. Seja como for, é evidente que nos penaliza a todos saber que este período de grandes reformas no ensino superior foi acompanhado por uma profunda desvalorização no plano financeiro, que se traduz numa diminuição do apoio público em cerca de 30% da percentagem do PIB afectado ao ensino superior, entre 2004 e 2008. Esta situação foi, felizmente, parcialmente corrigida, quer no orçamento de 2009, quer sobretudo no de 2010, quando, logo no início do ano, ainda tive o prazer de concluir, enquanto presidente do CRUP uma aproximação ao governo, que culminou na celebração do Contrato de Confiança. Esse contrato representou um aumento do envolvimento financeiro anual do estado nas instituições de ensino superior da ordem dos 100 milhões de euros, cerca de um terço daquilo que desde 2004 as universidades tinham perdido das mesmas fontes. Tratou-se de uma recuperação parcial, muito aquém do que seria desejável mas, apesar de tudo, representou uma mudança de posição política do governo. Considero, aliás, que esse foi o seu maior mérito.

Ao afirmar que “enquanto o país não investir no ensino superior, não terá recursos para coisa nenhuma”, acredita que a aposta forte na área é algo fundamental e que ajudaria a uma inversão da situação gravosa em que Portugal se encontra mergulhado?

Existe uma correlação muito forte entre a riqueza de um país, medida, por exemplo, em rendimento per capita, e o índice habilitacional médio da população activa. Os países que nos últimos 30 anos mais investiram em educação e cultura são aqueles que ao fim desse período chegam a um patamar em que conseguem proporcionar aos seus cidadãos rendimentos per capita mais elevados. O processo de criação de riqueza está fortemente correlacionado com a capacidade que cada um de nós tem de tomar a decisão profissional certa quando é chamado a fazê-lo. Se cada um de nós, no ambiente profissional em que todos os dias, meses e anos da nossa vida temos que tomar dezenas, centenas ou mesmo milhares de decisões profissionais, pudermos fazer de cada uma delas uma decisão um bocadinho mais bem informada, porque entretanto melhorámos os nossos conhecimentos de gestão, ou de inglês, ou de ciência jurídica ou de informática ou de qualquer outra matéria, o integral de todos esses milhares de decisões faria com certeza a diferença. É este 45 efeito de retorno que faz da despesa com a educação um investimento. Um bom investimento, rentável como mais nenhum. Mas é um investimento de médio e longo prazo. Investir hoje na educação não vai equilibrar a balança de pagamentos do país depois de amanhã. No entanto, é seguramente o investimento sustentado na educação que vai permitir, a termo, revitalizar a economia e equilibrar a balança de pagamentos, falando apenas no plano da rentabilidade económica. E depois existe a outra dimensão da educação e da cultura: estar bem consigo e com o próximo, compreender o mundo em que vivemos, saber participar no devir da sociedade, ter mais condições para se ser feliz, em plena realização individual e colectiva.

Foi muito crítico no que toca à junção do Ministério da Ciência e do Ensino Superior. Sente que a acção do ministro Mariano Gago foi sempre mais no sentido da ciência do que na resolução das questões inerentes ao ensino superior?

Em termos de percurso pessoal anterior, Mariano Gago sempre teve mais responsabilidades no campo da Ciência e sempre esteve mais atento às questões da Ciência. Mas, como já referi, a assinatura do Contrato de Confiança, em Janeiro de 2010, consagrou uma viragem iniciada com a preparação do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES). Não me pergunte se fez isso propositadamente, se a sua estratégia era tratar primeiro do sistema científico e só depois do sistema de ensino superior. Penso que se foi apercebendo que dificilmente poderia valorizar o primeiro sem se ocupar igualmente do segundo, pois não é possível puxar por áreas de ponta sem que o diagrama de base seja, todo ele, igualmente mobilizado. Quanto à junção das pastas da Ciência e do Ensino Superior, a bondade da opção depende da intensidade da interacção que se consiga potenciar, por via dela, entre os sistemas científico e universitário. E este campo, todos o sabemos, não tem constituído uma grande prioridade do actual Ministério.

Tem defendido a união entre universidades e politécnicos…

Não tenho defendido necessariamente isso. Acredito que há espaço para um tipo de formação universitária e para um tipo de formação politécnica. Assim sendo, é preciso que o país se organize tendo em vista assegurar a coexistência e o desenvolvimento consistente destes dois tipos de ensino. O que pode passar por várias opções. A mais eficiente, embora difícil no plano político, seria, efectivamente, a integração dos politécnicos nas universidades. Uma outra modalidade, mais exequível, seria a criação de entidades a que tenho chamado Regiões Académicas, que seriam responsáveis pela articulação das universidades e dos politécnicos de uma dada área geográfica, pela gestão mais eficiente dos recursos públicos, evitando-se a chamada deriva universitária dos politécnicos e a consequente deriva politécnica das universidades.

Evitaria, por exemplo, a duplicação de cursos…

Evitavam-se esses disparates e muitos mais. O actual sistema promove a concorrência desregulada o que sempre se faz com abaixamento de qualidade. Tenho dado exemplos à saciedade do que acabo de dizer mas, infelizmente, os objectivos de qualidade têm sido sacrificados no altar sagrado dos chamados valores do mercado. Também aqui, ainda não se percebeu que o mercado não resolve tudo e que, por vezes, não resolve nada.

Enquanto presidente de uma estrutura como o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), que agrupa instituições diversificadas, pensa ter conseguido estruturar uma linha de acção que tenha defendido os interesses de todos?

Enquanto presidente do CRUP, todas as minhas tomadas de posição foram precedidas de discussões no Conselho e resultaram de vias de consenso que contribuí para desenvolver. Logo no início, em Abril de 2007, produzimos um texto de consenso bastante completo, resultado de várias reuniões de discussão, intitulado “Carta de Princípios”, uma espécie de documento norteador das nossas posições face às necessidades de reforma do ensino superior em várias áreas: a autonomia, a governação, a regulação do sistema, a avaliação, os estatutos do pessoal docente e não-docente, o financiamento, a racionalização da rede e o ordenamento da oferta educativa. Foi com base nesse documento e de vários outros momentos de reflexão posteriores que intervim activamente no processo de discussão pública do RJIES, do novo ECDU (Estatuto de Carreira Docente Universitária) e de todos os outros documentos legais que deram corpo à reforma e tenho a consciência de que contribuí, penso que de uma forma positiva, para defender as posições das universidades e para introduzir nas leis as posições defendidas pelos reitores. Esta incessante busca de consenso levou a que algumas vezes tenha defendido posições que não eram exactamente as minhas iniciais, mas que resultavam dessa necessidade de chegar a acordo e de encontrar denominadores comuns, face a problemas complexos e a visões muito diversas dos mesmos. Dado que, por lei, o CRUP desenvolve a sua actividade “sem prejuízo da autonomia universitária”, as funções de Presidente do CRUP, encaradas numa perspectiva activa e participante e não meramente representativa, relevam sobretudo da esfera da diplomacia.

Depois de alguns anos de preparação, é no final do seu reitorado que o dossier de candidatura da UC a património mundial foi finalizado, o que permitiu apresentá-lo formalmente ao governo português. Embora o resultado prático desta iniciativa só venha a ser conhecido numa altura em que não será reitor, presumo que se sinta satisfeito, já que se tratou de um processo complexo e moroso…

Foi, de facto, um processo mais longo do que esperava. Mas entendi que, desde que o terminasse antes do final do mandato, o que felizmente veio a acontecer, não havia necessidade de o apressar. A UC vai fazer, dentro de dias 721 anos, e não é um a mais ou a menos na sua consagração como Património da Humanidade que faz qualquer diferença. Fiz questão que o dossier fosse bem preparado e muito consistente, e tenho consciência de que a preparação do processo já é, em si mesma, a concretização de um objectivo, pois permitiu o desenvolvimento de uma certa cultura de respeito pelo património físico e imaterial, além da chamada de atenção para
as questões que se prendem como esse património, cujas necessidades devem ser acauteladas nas decisões do quotidiano. E isto são hábitos culturais que se vão adquirindo e consubstanciam modificações de paradigmas culturais que demoram o ser tempo a passar para as práticas do dia-a-dia. Desejo que esta orientação se mantenha no futuro – tenho a convicção profunda de que assim irá ser –, e a expectativa que dentro de um ou dois anos possamos festejar a atribuição dessa classificação à UC. Os sete volumes e as duas mil páginas que compõem o dossier de candidatura representam, aliás, em si mesmo, uma síntese magistral do conhecimento e um repositório único sobre os resultados da investigação científica sobre a História da UC, pelo que, independentemente do objectivo principal, que obviamente espero que seja atingido, já valeu o esforço.

Outra das obras projectadas e lançadas durante o seu reitorado foi o Museu da Ciência (já galardoado com o Prémio Micheletti de melhor museu europeu na categoria de ciência, tecnologia e indústria), cuja conclusão, projectada para 2013, irá transformá-lo num depósito unificador do acervo científico disperso por vários museus universitários e Faculdades. É sem dúvida uma obra fundamental para a preservação da memória e identidade da UC…

A primeira fase foi aberta ao público em Dezembro de 2006, no Laboratório Chimico e temos, neste momento, em preparação, a segunda, que será desenvolvida no Colégio de Jesus. O projecto técnico de arquitectura e engenharia está a ser concluído e está igualmente assinado o contrato de financiamento para a realização dessa obra. Os resultados já alcançados, apesar de corresponderem apenas à chamada Pré-figuração do Museu da Ciência, já permitem perceber as capacidades e potencialidades da Universidade nesta matéria e a bondade da orientação que foi seguida. Quando se visitavam os museus da UC era-se marcado pela dispersão, pela desarticulação, pela desadequação dos meios humanos e materiais, pela falta de capacidade para dar cumprimento aos seus objectivos e à sua missão. E isto, apesar do esforço diário de todos, professores e trabalhadores não-docentes, a quem se fica a dever a abnegação de um trabalho tantas vezes mal reconhecido e a preservação de um património ímpar. Impunham-se, portanto, alterações organizacionais que dessem escala ao projecto e permitissem colocar ao serviço da comunidade o acervo museológico da UC, o mais importante, por vezes único, acervo de museologia científica existente em Portugal. Depois de termos mostrado, com a primeira fase, para dentro que vale a pena, e para fora que somos capazes, a segunda fase vai ser lançada assim que seja possível instalar os Departamentos de Ciências da Terra e de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia, que ainda ocupam parcialmente o edifício do Colégio de Jesus.

Um dos pontos que também tem referido com grande satisfação é a posição de destaque ocupada pelo Instituto Pedro Nunes (IPN), recentemente considerado a melhor incubadora de empresas a nível mundial. É da sua opinião que a ligação da UC ao IPN tem sido fundamental na potenciação de um relacionamento privilegiado entre investigadores e empresários?

Refiro-o com muito orgulho. Neste caso não devemos poupar as palavras, pois dificilmente encontraremos na UC um motivo tão forte de satisfação, como a posição de primeiro lugar mundial numa área tão sensível como é a da transferência e da inovação. O IPN é uma criação da UC, muito embora associando-se a outros parceiros cuja actividade é necessário relevar, mas é a UC que está por detrás e alimenta, no plano científico, a maior parte das actividades do IPN. Com cerca de 20 anos, é uma casa muito jovem, sobretudo na vivacidade das empresas incubadas, num número que já ultrapassou as 150, com uma taxa de sucesso que ultrapassa os 80%, com a criação de um número de postos de trabalho altamente qualificados superior a 1500 e com mais de 70 milhões de euros de facturação anual. Estes níveis de sucesso, que são excepcionais a nível mundial, são tanto mais impressionantes quanto é certo que acontecem numa cidade que viveu ainda há poucos anos em depressão económica, com a falência de dezenas de empresas tradicionais nas últimas décadas do século passado. Coimbra fica a dever a capacidade que demonstrou para inverter essa posição, à estratégia definida pela Universidade no início da década de 1990 e a esta aposta ganha, definitivamente, na criação de riqueza através de actividades de inovação, dos spin-offs da Universidade, das empresas incubadas, com base em ideias de professores e de estudantes da UC.

O surgimento da Fundação do Museu da Ciência, para tutelar o grande projecto do Museu da Ciência da UC, assim como o da Fundação Cultural da UC – que agrupa Auditório da Reitoria, Estádio Universitário (EU), Palácio de S. Marcos e Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) – tem como intuito gerir e autonomizar determinadas espaços adjacentes à Universidade. Sentiu que seria essa a melhor forma de conseguir dinamizá-los, diminuindo os encargos directos da UC?

Era necessário conseguir três coisas. Por um lado, defender a UC do que me pareceu ser a política nacional nessa matéria, que passava por uma interpretação demasiado restritiva da missão das universidades. Em segundo lugar procurar uma fórmula organizacional que permitisse continuar a proporcionar aos seus membros o acesso a actividades de natureza cultural e desportiva. Finalmente, não menos importante, conseguir ter acesso a apoios financeiros específicos, recorrendo nomeadamente a alguns programas dos fundos comunitários, relativamente aos quais as universidades não são instituições elegíveis. Não me conformava com a impotência que foi a de alguns reitores e também a minha, que ao longo de vários anos procuraram apoios, por exemplo, para o TAGV e o EU, num prolongado jogo de ping-pong entre o Ministro das Universidades e as tutelas da cultura e do desporto, dizendo cada um deles que a responsabilidade era do outro. Tenho consciência que estamos ainda longe de ter aproveitado todas as potencialidades que resultam da criação desta estruturas mas, pelo menos no campo da cultura, os apoios a que já tivemos acesso justificam a sua criação.

Ao contrário de instituições como a Universidade de Aveiro, do Porto e do ISCTE (Lisboa), a UC ainda não se transformou numa fundação. Não acredita nessa via ou, simplesmente, enquanto reitor, nunca achou que tivesse chegado o momento de dar esse salto?

Trata-se, apenas, de uma questão de avaliação consciente e pragmática das duas hipóteses alternativas e das respectivas vantagens e inconvenientes. Nunca me opus, por princípio, à opção fundacional, apenas considerei e a Assembleia Estatutária acompanhou-me nessa reflexão, que não havia a informação necessária para que pudéssemos tomar uma decisão em consciência. A decisão de avançar para uma fundação é demasiado importante para que possa basear-se em razões de natureza conjuntural. É avisado deixar passar o tempo suficiente para que possam falar as razões profundas e não as meras preferências dos ocasionais protagonistas. Chegará o momento em que, eventualmente, a UC terá que olhar para essa questão. Mas, tal como aconteceu com o processo de Bolonha em Coimbra, demorarmos mais do que os outros não significa estar fora de moda, significa apenas ter o bom-senso de procurar os meios para fazer as coisas bem.

Falando de decisões, ao olhar para os oito anos como reitor, teria feito alguma coisa de diferente?

Com certeza que sim [risos]. É impossível que a s milhares de decisões que tomei em oito anos de mandato tenham sido todas igualmente boas. Tenho esperança que, globalmente, a evolução seja considerada positiva. Comparamos a UC de 2003 com a de hoje e percebemos que houve uma enorme evolução em variadíssimos aspectos. A UC alargou imenso a sua oferta educativa, nomeadamente ao nível da pós-graduação, abriu-se a novos públicos, alterou profundamente a composição do seu corpo discente, aproximou-se da sociedade, absorveu o sentido e a necessidade da mudança permanente, consolidou a qualidade das suas actividades de investigação, cujos resultados são agora defendidos no plano da propriedade intelectual e das patentes, rejuvenesceu na idade e no nível habilitacional do seu corpo de trabalhadores não-docente, e está hoje mais capaz de responder aos desafios do futuro.

Como encara as palavras de quem afirma que, ao longo dos seus mandatos, se destacou mais como o reitor da abertura ao exterior e património e menos da investigação?

Fico satisfeito que se reconheça o trabalho de abertura à sociedade, sob o lema que constituiu o título do programa de acção para o meu primeiro mandato, “Fazer Univer[sc]idade”, e a atenção que se deu, numa Universidade com 720 anos, à valorização do seu valiosíssimo património. Quanto à outra questão, com o devido respeito, acho que é uma crítica injusta. A investigação é uma área em que a maior responsabilidade não está na reitoria, mas nas unidades orgânicas. Apesar disso, pela primeira vez em Coimbra, houve sempre um vice-reitor com competências delegadas para desenvolver um ambicioso programa de apoio, de incentivo e de valorização da investigação científica que passou, entre outros aspectos, pela articulação interdisciplinar dos vários centros e unidades de investigação avaliados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, através de uma iniciativa inovadora que foi a criação do Instituto de Investigação Interdisciplinar, entretanto transformado em Escola Doutoral; pelo incentivo à investigação e à formação pós-graduada nos domínios artísticos através da criação do Colégio das Artes; pela criação de duas outras Unidades de investigação, o Tribunal Universitário e o Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde; pela obtenção de financiamento para a instalação condigna de dois dos centros de investigação mais importantes da Universidade, o CNC e o CES, o primeiro no Pólo III e o segundo na Rua da Sofia, dando corpo ao regresso à Baixa; pelo financiamento de bolsas de doutoramento e de programas de investigação.

Muito em breve suceder-lhe-á uma nova pessoa no cargo de reitor. Que UC irá encontrar?

Encontrará uma universidade que é, hoje, forte e moderna, nos planos da formação, da investigação científica, da transferência e da inovação, da internacionalização. Orgulha-se de receber anualmente cerca de 3000 novos estudantes, de contar mais de 3500 estudantes estrangeiros provenientes de 60 países, de ter preenchido 100% das vagas disponibilizadas no início do ano lectivo, de ser reconhecida como uma casa aberta ao mundo, capaz de responder às solicitações do exterior, a que jamais alguém voltará a chamar torre de marfim. Está mais perto da Univer[sc]idade com que sonhei e que tenho ainda a honra de servir, como Reitor. Competirá a quem me suceda dar novos passos e fazê-la chegar a novos patamares.

Depois de ter sido reitor da UC, diz não ambicionar qualquer outro cargo. O que se segue, então?

Não poderá seguir-se nada que me dê tanta honra e prazer como os que tive e tenho, como reitor da UC. O futuro o dirá.

 

Fernando Seabra Santos entrevistado por Marta Poiares e Pedro Dias da Silva, em Rua Larga, nº31