Partindo do mote do 725° aniversário da Universidade de Coimbra (UC), o Reitor, João Gabriel Silva, lembra a responsabilidade que o peso histórico confere à instituição, colocando-a na linha da frente na captação de estudantes estrangeiros. O Reitor manifesta também o desejo de um fortalecimento das relações entre a Universidade e o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra. Ainda na área da Saúde, são dados a conhecer protocolos com os quais se pretende incentivar a investigação em áreas clínicas e não clínicas.

Tecnohospital (TH): A Universidade está a comemorar os 725 anos da sua criação com um programa extenso e ambicioso, de março até dezembro de 2015. Quais os objetivos e os pontos altos desta comemoração?

João Gabriel Silva (JGS): Há duas iniciativas que se sobrepõem claramente: uma é o ano zero, que esperamos seja o início de uma bienal de arte contemporânea com imensas exposições em Coimbra. Podemos perguntar por que razão vamos buscar a arte contemporânea, às vezes muito conceptual e um desafio para todos. Isto tenta marcar a ideia de que uma universidade, para sobreviver durante tantos anos como a Universidade de Coimbra, tem de ser reinventada continuamente. A ideia de que uma instituição, por ser antiga, é parada no tempo, é uma contradição em si, porque se ela estivesse parada já tinha desaparecido. Irá também decorrer um grande congresso da Língua Portuguesa. O lema é Língua Portuguesa – Língua de Futuro. A Universidade de Coimbra tem uma característica que a distingue de todas as outras universidades do mundo: sendo uma universidade muito antiga (está entre as 10 mais antigas do mundo) é a única que esteve sozinha durante 6 séculos. Nos outros sítios onde há universidades de idade similar (Itália, Alemanha, França, Espanha, Inglaterra, etc.) houve sempre mais de uma universidade. No espaço de língua portuguesa, só no século XX é que se criaram outras universidades. Vamos ter um programa muito recheado no início de dezembro, que no fundo invoca essa nossa herança mas também está virado para o futuro. A UC está a transformar- se numa universidade global. Já foi mais durante outros períodos mas neste momento essa aposta é muito forte. Somos a universidade portuguesa que maior percentagem de estudantes estrangeiros tem e queremos intensificar isso mas vamos fazê-lo em língua portuguesa. A Universidade já tem e vai continuar a ter alguns cursos e módulos selecionados em língua inglesa e também há ensino de outras línguas. No entanto, não nos vamos transformar em mais uma universidade inglesa. Somos uma universidade de língua portuguesa e achamos que a língua portuguesa tem atratividade suficiente para trazer para cá muita gente. Essa é a nossa aposta, portanto é natural que a comemoração dos 725 anos encerre com um grande congresso de língua portuguesa – língua de futuro.

TH: Há pouco referiu-se a um objetivo da Universidade que é o da globalização. Estamos a assistir, atualmente, ao problema da crise dos refugiados. Pode passar por aí a receção de pessoas vindas de diversos países, nomeadamente da Síria?

JGS: Já temos estudantes sírios connosco há vários anos. A UC foi uma das universidades que responderam, desde a primeira hora, positivamente ao apelo do presidente Jorge Sampaio quando, no âmbito da Aliança das Civilizações, Portugal recebeu estudantes sírios. Com a atual leva de pessoas que chega à Europa, já nos manifestámos absolutamente disponíveis para receber mais gente e colaborar no que pudermos nessa matéria.

TH: Segundo declarações que prestou, o Sr. Reitor prevê que, nos próximos 15 anos, a Universidade terá metade dos alunos e será preciso tomar medidas para impedir a desertificação de alunos…

JGS: Isso tem estritamente a ver com evolução demográfica. Como as universidades recebem jovens com 18 anos, sabem com 18 anos de antecedência qual é a afluência que vai haver. A partir de 2019/2020 vamos perder 2 a 2,5 por cento de jovens ao ano, e portanto em 2030 teremos perdido 25 a 30 por cento dos jovens. A menos que haja um aumento da percentagem dos jovens com curso superior, todo o ensino superior português vai sofrer aquilo que o ensino básico e secundário já sofreram – fecho de escolas. Isso representa um problema grande porque, numa universidade mais pequena (e o financiamento das universidades é proporcional ao número de alunos), se há uma diminuição do número de estudantes, há uma grande diminuição do orçamento e isso significa que há uma grande diminuição do número de professores e das áreas de investigação. Perde-se imenso conhecimento, e o serviço que as universidades prestam aos portugueses é pior. Temos de fazer alguma coisa para impedir isso. Podemos, essencialmente, atrair jovens onde eles existem, isto é, fora de Portugal. Temos de atrair gente para vir ocupar a capacidade da universidade, que deixa de ser utilizada pelos nacionais. A atração desses estudantes e dos recursos provenientes do financiamento que trazem permite manter e desenvolver as áreas em que a universidade intervém para que a qualidade do ensino fornecido aos portugueses possa manter-se.
Qualquer universidade que se mantenha confinada às fronteiras do seu país vai estar num ambiente muito mais protegido. Quando vamos lá para fora, a concorrência é completamente diferente. Isto obriga-nos a responder de outra forma e com outro grau de exigência, portanto aquilo que depois podemos fazer para os próprios portugueses é de melhor qualidade. O desafio da globalização é, simultaneamente, um desafio da viabilidade do sistema de ensino português e é o desafio da qualidade para os jovens portugueses. A UC tem, nesta matéria, uma obrigação muito particular porque é, de longe, a universidade mais conhecida no estrangeiro. Dispondo de uma capacidade de atração que as outras universidades portuguesas não apresentam, tem obrigação de liderar o processo de atração de estudantes internacionais, para que se crie a ideia de que vir estudar para Portugal faz sentido. Estamos a conseguir atrair um número crescente de jovens internacionais que procuram um sistema de ensino de qualidade e que, em termos internacionais, tem uma boa relação custo/ qualidade.

TH: No dia 30 de julho, a Reitoria da UC assinou, com o Serviço de Utilização Comum dos Hospitais (SUCH), um acordo de cooperação para as áreas não clínicas da saúde. Quais são os objetivos deste acordo?

JGS: Pretende-se um maior desenvolvimento nessas áreas. Coimbra tem um desenvolvimento manifesto na área da Saúde. Tem o maior Centro Hospitalar português e a mais antiga Faculdade de Medicina (fundada em 1290). Sendo uma área tão importante, não podemos deixar de reconhecer que a Medicina, continuando a ser, sem dúvida, liderada pelos médicos, é cada vez menos protagonizada só por eles. Os médicos precisam de utilizar toda a infraestrutura e equipamentos que existem em número crescente, cada vez mais exigentes e mais decisivos na qualidade da medicina, e portanto este acordo com o SUCH é apenas um passo mais naquilo que já é praticado na universidade. Há muitos setores da Engenharia, bem como a Farmácia, a Psicologia, o Desporto ou as Ciências Básicas, que trabalham em áreas subsidiárias do ato médico. Aqui em Coimbra, orgulhamo-nos de ser a única universidade portuguesa com fármacos no mercado. Produzimos os radiofármacos para os exames PET e ainda há dias introduzimos mais uma molécula que permite avanços significativos na deteção precoce do cancro da próstata. A equipa de Ciências Nucleares aplicadas à Saúde é liderada por um médico mas os investigadores mais centrais são um físico e um bioquímico, portanto cada vez mais estamos num mundo interdisciplinar. Nestas áreas subsidiárias da Medicina como nas outras, temos de ter investigação fundamental e investigação aplicada e precisamos de trabalhar com quem pratica isso no dia-a-dia. O SUCH é uma das instituições intensamente ativas em todas essas áreas subsidiárias da Medicina. A ligação, na prática, já existia, apesar de só agora ter sido formalizada.

TH: Esta ligação materializa-se através de estágios?

JGS: Os estágios são um dos mecanismos centrais, embora a ambição seja ter projetos de investigação. Já existem algumas atividades com colaboração do SUCH mas a expectativa é que consigamos fomentar isso de forma substancial e tenhamos uma atividade crescente que permita atingir resultados a incorporar na atividade normal do SUCH.

TH: Nesse protocolo também está prevista a internacionalização. De que modo esta valência entra neste processo de colaboração?

JGS: A universidade já tem imensas colaborações internacionais na área da Saúde. Para a semana vou estar em Cabo Verde, no lançamento oficiai do curso de Medicina da Universidade de Cabo Verde, que é construído com o apoio total da UC, apoio que irá manter-se até aquela universidade ter corpo docente próprio. Temos muitos projetos europeus também, e presença em muitos países africanos, e aqui aplica-se o mesmo princípio: cada vez mais a Medicina é muitas coisas que não estritamente o diagnóstico e tratamento. O SUCH também tem presença relevante nos PALOP, portanto há aqui uma oportunidade. Mesmo a nível europeu, há muitos projetos aos quais nós concorremos consorciados com empresas que trabalham naquela área, pois de outra forma não temos hipóteses de os projetos serem aceites. Havendo uma complementaridade tão grande entre a Engenharia e a prática diária, há aqui mais oportunidades para termos projetos de investigação graças a essa parceria com o SUCH.

TH: Decorreu, recentemente, a cerimónia da constituição do Centro Académico Clínico de Coimbra. Do ponto de vista da Universidade, quais as vantagens desse consórcio? Para quem está de fora, dá a sensação de haver demasiadas concentrações em Coimbra, como acontece no CHUC. Não teme que estas concentrações sejam excessivas ou não é esse o objetivo do consórcio, apesar de ter uma administração própria?

JGS: É importante que fique claro que este consórcio não se vai substituir aos órgãos próprios das instituições. A Universidade não se fundiu com o Centro Hospitalar. Espero que, com este mecanismo, haja mais hipóteses de colaboração por razões próximas àquilo que eu estive a dizer ainda agora. A investigação, mesmo na área médica pura, feita na Universidade, tem de ter uma presença e colaboração muito relevantes com os médicos do hospital e com os serviços do hospital para que se possa verificar se funciona, se está a responder a problemas importantes. Embora o CHUC tenha “Universitário” no nome, do ponto de vista formal as entidades estão muito afastadas porque uma depende do Ministério da Saúde e outra depende do Ministério da Educação, e formalmente as ligações são ténues, embora uma boa parte dos professores da Faculdade de Medicina trabalhe no hospital. A ligação existe na prática mas organicamente é incipiente. Todo o espaço que possamos dar para aumentar o entrosamento é ótimo, embora gostássemos de atingir aquilo que designamos por Hospital Universitário, ou seja, aquele em que os profissionais também contribuem para a aplicação dos conhecimentos de investigação científica à prática diária. Há muitas áreas em que os conhecimentos mais avançados podem ser aplicados, portanto isto não é nada que se pareça com uma fusão, é um consórcio baseado numa regra de unanimidade nas decisões. Ninguém pode impor nada a ninguém, mas espero que o facto de tornar mais próximas as instituições resulte num acréscimo de atividade benéfica para ambos os lados. E uma estrutura muito leve. Não vai mandar em nada, vai apenas suscitar nova atividade.

TH: Na cerimónia solene de abertura do ano, apontou alguns problemas no modelo jurídico da autonomia universitária. Qual o modelo mais aconselhável?

JGS: Neste período de quatro anos, marcado por fortes restrições, houve imensas alterações legislativas que o Governo entendeu necessárias para conseguir melhorar algum aspeto de funcionamento da Administração Pública. Agora, o que acontece é que na estrutura da Administração Pública existem entidades de vários tipos e figuras jurídicas de vários tipos. Algumas fazem parte da Administração Central, depois existem institutos públicos, fundações, associações, empresas públicas, entidades públicas empresariais, muitas variantes. As universidades têm sido incluídas em dois modelos: algumas são Fundações e outras são Institutos Públicos. Muitas vezes o Governo, por achar que há algumas Fundações que se “portaram mal” ou que é preciso fazer mudanças, altera as regras das Fundações. As Fundações universitárias, que não eram minimamente visadas naquilo que o Governo queria fazer, “apanham por tabela” e sofrem restrições dirigidas, genericamente, às Fundações e que não têm nada a ver com algum comportamento das universidades. Sendo Institutos Públicos, acontece exatamente a mesma coisa. Eu entendo que na arquitetura jurídica do Estado deve haver uma figura jurídica só para as instituições de ensino superior para que qualquer governo, quando for alterar as regras de funcionamento das instituições de ensino superior, o faça deliberada e conscientemente, e não por efeito colateral. As universidades são, no mundo da Administração Pública, um “bicho” muito pouco comum porque geram à volta de 50 por cento (com variações de universidade para universidade) de receita própria, ou seja, vivem de 50 por cento de dotação do Orçamento de Estado mas os outros 50 por cento são de outra proveniência. Por exemplo, a UC tem um orçamento na casa dos 180 milhões de euros. Recebe do Estado à volta de 80 milhões. Ora, uma instituição, para ter uma capacidade de angariação de receita desta índole tem de ter um modo de funcionamento que em nada se assemelha ao dos outros Institutos Públicos com missões muito mais restritas. Tentar regular, em simultâneo, instituições tão diferentes dá mau resultado.

TH: Atualmente, as universidades dependem da Secretaria de Estado do Ensino Superior, embora exista também uma Secretaria de Estado da Ciência. Deveriam estar integradas?

JGS: Já houve uma fase em que estiveram, mas eu acho que devia haver uma tutela única para as instituições de Ensino Superiore para a Ciência. Em Portugal existe, de uma maneira bastante artificial, uma separação grande entre o sistema científico e tecnológico. Se olharmos por todo o mundo, as grandes descobertas científicas na área da Saúde, por exemplo, foram quase todas feitas nas universidades. Estar a separar os dois mundos é desperdício de recursos e é mal pensado. As universidades, todos os anos, recebem gente nova, com ideias, com vontade, e essa renovação está na base da criatividade e da descoberta. Manter dois sistemas autónomos ou pseudo-autónomos é desperdício de recursos, e nós não andamos propriamente a nadar em dinheiro. Portanto, uma separação que pode ter feito sentido há 20 ou 30 anos devia ser desfeita e devíamos fazer confluir o sistema de ciência com o sistema de ensino superior.

TH: Há um assunto que de vez em quando surge na comunicação social, que é o problema das praxes e dos excessos que se cometem em seu nome. Qual a sua opinião sobre este assunto, sendo certo que, como uma universidade muito antiga, a UC está um pouco conotada com esta figura da praxe, que tinha sido interrompida de forma definitiva, pensava eu, em 1969, mas regressou em 1982?

JGS: A própria história mostra a força que as memórias e a tradição têm. Obviamente não houve nenhuma ação governativa nem da hierarquia universitária no sentido da proibição. Foi uma ação espontânea, nascida dos estudantes, que decidiram retomar as tradições. Isso mostra que classificar a praxe como uma coisa boa ou uma coisa má é uma simplificação que não corresponde à realidade. A praxe não é intrinsecamente boa ou má, é um conjunto de práticas que as pessoas decidem seguir. O importante é que sejam respeitados os limites da liberdade. Assim como nós achamos que todos têm direito à sua opinião política, religiosa, etc, desde que isso não seja imposto a ninguém, a praxe, no meu entendimento, funciona exatamente da mesma forma. Como é que um reitor ou a hierarquia universitária podem intervir numa coisa que lhes é exterior? Eu entendo que devemos ter mecanismos que nos permitam sancionar o desrespeito pela liberdade e pela dignidade dos outros, e por minha iniciativa, logo no primeiro mandato foi elaborado um regulamento disciplinar dos estudantes, que não foi feito com este objetivo mas esta é uma das questões que lá estão. Seja como for, havendo desrespeito, na praxe ou fora dela, pela dignidade e pela liberdade dos outros, há mecanismos para sancionar isso. Em paralelo, tenho feito um esforço muito grande no sentido de vincar o caráter absoluta e estritamente voluntário da participação na praxe.

TH: Quais são os pontos essenciais deste seu segundo mandato?

JGS: O meu objetivo central é que a UC se transforme solidamente numa universidade global. A UC é, razoavelmente, uma universidade global neste momento, mas para sermos uma universidade que atraia de forma regular estudantes de grande qualidade do mundo inteiro, ainda temos uns passos para dar, à semelhança do sistema de ensino superior português de uma maneira geral. Isto significa imensas coisas, como por exemplo mudar a per- ceção que a sociedade tem das suas universidades, no sentido de perceber que são não apenas uma despesa (é preciso gastar dinheiro todos os anos para manter as instituições a funcionar) mas também uma fonte de internacionalização, porque de cada vez que conseguimos atrair um estudante outro país, ele vem para aqui gastar dinheiro na sua estadia, nas suas viagens, na sua alimentação, etc, e obviamente no ensino. Quando sair daqui leva ligações que duram para a vida e será, portanto, um interlocutor fantástico das empresas e instituições portuguesas para onde quer que vá. Em Portugal ainda fazemos isto de maneira relativamente limitada, e portanto há um enorme percurso a fazer, e principalmente há um desafio de qualidade. O grande desafio da UC, no meu entendimento, é elevar os seus padrões de exigência para níveis compatíveis com a feroz concorrência que existe num mercado que cresce, pelos números da OCDE, 7 por cento ao ano há muitos anos e tudo indica que vai continuar a crescer. A UC já está nos rankings internacionais numa posição muito boa. Se conseguirmos elevar ainda mais o nível de exigência e conseguirmos que o país sinta isso e os governos em particular o sintam, será fantástico, mas creio que isso é tarefa para mais de um mandato.

João Gabriel Silva é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, mas ao longo dos anos foi-se “transformando” em Engenheiro Informático. Quando se criou o Departamento de Engenharia Informática na Universidade de Coimbra, foi um dos primeiros docentes. Foi para a direção da Faculdade de Ciência e Tecnologia em 2002, na altura como vice-presidente do Conselho Diretivo e Científico, e depois Diretor. É Reitor desde 2011. Está no segundo mandato, tendo sido reeleito este ano.

Entrevista a João Gabriel Silva (20151125), em http://aulp.org/node/113772 (fonte: Tecno Hospital)

Facebook