Estamos em fase de apresentação de candidaturas à Reitoria da Uma. A pergunta que se impõe é: vai se recandidatar ao cargo de reitor?Não, não me vou recandidatar

Alguma razão em especial?

Eu quando apresentei a minha candidatura nas listas ao Conselho Geral, disponibilizei-me a continuar na liderança da Universidade face aos grandes problemas que penso que vamos ter no futuro que resultam dos condicionalismos externos que todos nós conhecemos e numa grande transformação que está a acontecer ao nível mundial nos sistemas de ensino superior. Portanto achei que era um momento de uma certa dificuldade para a Universidade e que na minha condição de professor da casa com alguma experiência deveria disponibilizar-me para isso. Mas também era claro para mim que o próximo reitor além de ter essa experiência deveria também ter uma sólida base de apoio. As eleições mostraram que essa base de apoio não existe e penso que neste momento tenho um colega que está em muito melhores condições para dirigir a universidade no próximo futuro.

Portanto, tem um sucessor predilecto? (risos)

Penso que ninguém ignora que eu tenho uma relação de amizade muito antiga com o Professor José Carmo e que, em épocas passadas, o teria apoiado se ele se candidatasse à reitoria, penso que isso toda a gente sabe…

Mas fica claro que a votação para o Conselho Geral também ajudou…

É sempre importante numa instituição universitária como aquela que eu dirijo, tenha um apoio alargado. O apoio que o Professor José Carmo teve nestas eleições é muito superior aquele que eu tive há 4 anos e por isso penso que, nesse ponto de vista, ele tem uma base muito sólida e, portanto, estará em melhores condições para responder aos desafios que aí vêm.

Mas venha quem vier para a Reitoria terá desafios muito mais difíceis de enfrentar do que aqueles que o Professor teve neste último mandato e muito piores do que enfrentou quando esteve na Reitoria pela primeira vez.

Eu não sei se a graduação que se deve fazer é essa, nem estou sequer em condições de fazer comparações porque, como é evidente, nos quatro anos que acabaram de passar fui eu que dirigi a instituição e os problemas que ela teve, enfrentei-os sentindo-os de forma muito pessoal e certamente não vou sentir os próximos da mesma maneira. Aquilo que eu sei é que, à medida que as coisas se vão tornando mais complexas, que a universidade se vai tornando mais competitiva, mais aberta, estes desafios, muitos deles não se resolvem de uma forma cabal e vão se tornando cada vez mais complexos. Julgo que desse ponto de vista, alguns dos desafios que eu comecei a enfrentar e que ele vai enfrentar também serão certamente mais complicados. Outros serão menos. Eu tive um grande desafio nestes últimos quatro anos que foi a transformação interna da instituição e essa está feita. Eu julgo que não é possível fazer comparações desse género. Acho que quem lá está está é a única pessoa que sabe efectivamente como as coisas se passam e como lhe disse há pouco ele (José Carmo) tem um base de apoio muito forte, é uma pessoa que dentro da casa goza de grande prestígio e depois também tenho a minha apreciação pessoal: o Professor José Carmo é uma pessoa de uma profunda honestidade, é um homem muito inteligente e competente e é um grande trabalhador e eu tenho muita confiança no trabalho que ele venha a fazer, se for eleito, como é evidente, porque, como sabe, isto não são dados adquiridos.

Essa base de apoio ao Professor José Carmo resulta das propostas que apresentou na candidatura ao Conselho Geral ou também vê no resultado uma contestação à prática seguida?

É inegável que existem as duas coisas. As transformações que se operaram na Universidade certamente não foram do agrado de toda a gente e por isso isso é natural que exista contestação, mas penso que o apoio que ele tem é superior a essa contestação.

Há pouco falávamos das mudanças profundas que foram operadas na Universidade nestes últimos anos. Muita coisa foi feita nestes quatro anos.

O Professor quando entrou na reitoria em 2009 foi responsável desde a mudança estatutária, a implementação do Conselho Geral, a criação de observatório e mesmo de uma reorganização da universidade. Isso foi um dos seus maiores desafios neste seu mandato?Sem dúvida que foi. Quando eu tomei posse, isso era algo que era reconhecido. Nós na revisão estatutária tínhamos proposto, em virtude do novo regime jurídico, uma alteração profunda da organização Universidade quer do ponto de vista académico, do ponto de vista administrativo não muito porque a legislação prevê que cada reitor possa organizar a parte administrativa como melhor entender, mas havia naturalmente transformações a fazer a esse nível também. As transformações das unidades orgânicas, a meu ver, correram o melhor que podiam correr, mas era uma transformação muito complexa, como aliás penso que verificam agora com o tempo que está a levar a fusão das duas universidades, a Técnica e a Clássica, porque são processos que tocam muito na identidade das pessoas, as pessoas estão muito ligadas às suas universidades, aos seus departamentos, portanto, fusões deste género têm sempre alguns problemas. Não houve uma transformação perfeita, mas penso que ela correu o melhor que podia correr. Para além disso havia objectivos que eu na altura tinha traçado e em que tocaram já como a internacionalização, a abertura a novos públicos, uma maior abertura à sociedade civil e uma maior cooperação com as entidades públicas e privadas da Região e por cima disso tudo ainda houve outras transformações que não eram expectáveis, como a reforma do estatuto da carreira docente universitária. No meu discurso de posse lembro-me perfeitamente de dizer que não estava à espera que ele se alterasse e foi alterado 4 meses depois… Portanto houve coisas que não estavam previstas e que aconteceram… Mais tarde houve o Contrato de Confiança que também veio trazer alterações muito profundas aquilo que estávamos a fazer e finalmente houve a crise, que veio alterar algumas condições. Mas os grandes objectivos que nós tínhamos de reorganização da casa, de aposta na qualidade, de abertura à sociedade civil, de internacionalização e abertura a novos públicos, penso que se deram passos muito concretos, em algumas coisas muito significativos também e outras coisas ficaram mais embrionárias e depois falhamos algumas coisas…

Quais, por exemplo…

Um dos objectivos que está nos próprios estatutos da Universidade é a área do Turismo, que não foi efectivamente possível avançar. Uma outra área em que havia muitas expectativas na Região foi a Medicina em que nós não conseguimos dar nenhum passo concreto em relação aqueles que já tínhamos dado…

E isso por falhas internas ou porque as parcerias não funcionaram?

Essencialmente por questões que têm a ver sobretudo com a crise. Como sabe a questão dos cursos de Medicina tem sido muito polémica e ainda há pouco tempo ouvimos falar de um curso que foi recusado pela Agência de Acreditação, o da Universidade de Aveiro. Nós, na altura do Ministro Mariano Gago, havia a possibilidade de criar aqui uma Escola Internacional de Medicina e infelizmente, e como são processos que levam anos a construir, a proposta foi lançada à universidade um ano e meio antes do ministro sair. Houve processos desse género que exigiam um grande apoio financeiro também e que a crise obviamente matou. O caso do turismo é um caso mais complexo. Eu procurei logo no início do meu mandato falar com o secretário de estado da altura, o professor Manuel Heitor, sobre a possibilidade de nós virmos a ter um apoio concreto para desenvolvermos uma escola de turismo aqui. A filosofia do Ministério na altura era de ligação muito forte às universidades americanas com reprodução em Portugal das metodologias e processos que eles têm nos Estados Unidos. E ele disse-me na altura que uma das áreas em que tinham pensado era o Turismo, mas o diagnóstico feito pelas universidades americanas era o de que o nosso país não estava em condições de ter esse tipo de desenvolvimento no Turismo, porque como sabe, o Turismo é uma área muito nova no nosso sistema universitário. Portanto, esse tipo de apoios visivelmente não iria existir e teria de ser uma coisa mais local e aí há um problema que tem de ser resolvido previamente, mas estou convencido que o meu colega José Carmo, se for eleito, será um dos problemas que irá tratar, é exactamente o que é que se quer. O turismo é uma área vastíssima em que se pode ir desde os estudos de mercado à formação de pessoal para se trabalhar nos hotéis. O que eu defendo é que nós deviamos provavelmente avançar com uma escola que de alguma forma respondesse também às necessidades da hotelaria da Região e portanto com uma cooperação muito forte com eles. Agora, exactamente em quê, confesso que não sou especialista na área, mas nunca consegui perceber exactamente o que se pretendia.

De qualquer maneira seria uma escola que não entrasse em choque ou concorrência com a Escola Profissional de Hotelaria?

Aí há questões que são claramente distintas. A Escola de Hotelaria forma a um nível que é inferior ao das universidades e penso que até é possível alguma cooperação entre as duas escolas, que aliás já existe noutras escolas. Agora exactamento o que se pretende? Pretende-se formar gestores para os hotéis, pretende-se formar pessoas que fazem estudos de mercado e marketing, o que se prentende? Uma coisa é muito óbvia. Estas áreas são muito vastas e nós não podemos estar em tudo. Exactamente o que se pretende? Penso que é essa a questão. Nós falamos muito sobre Turismo mas eu nunca vi alguém dizer exactamente o que era necessário fazer…

Seria importante talvez um maior diálogo a esse nível…

Reconheço que aí poderia ter havido mais do que houve, mas de facto não nos foi possível e espero que, nos próximos tempos, isso venha a ser resolvido.

Agora, é óbvio que as dificuldades financeiras que se têm vindo a sentir e que cada vez são mais, isso vai complicar um pouco a gestão das universidades nos próximos anos…

Vai complicar pelo seguinte: nós temos uma tradição em Portugal que eu penso que é péssima que é a de avançar com as coisas sem termos tudo, sem termos as questões essenciais resolvidas. Avançamos com as universidades sem termos corpo docente para elas, metemos alunos e depois é que andamos à procura de professores para eles, e por aí fora. Penso que numa área destas, se quisermos transformar e há oportunidades, porque, como lhe disse, o fraco desenvolvimento da área do turismo em Portugal significa que quem fizer um investimento nesta área pode demarcar o território. Mas é um investimento que tem de ser muito grande, porque temos de ir buscar pessoas do melhor que há logo à partida. Isso não é uma questão de megalomania, mas é a única forma. É uma área que para sobreviver, tal como qualquer outra área, terá de ter gente de fora. A concorrência a esse nível é muito grande: há gente da Madeira que vai estudar para a Suíça. É um mercado em que se viaja muito, em que se vai fazer a formação a outros sítios, portanto teria de ser feito um investimento muito grande no início, sobretudo em termos de recursos humanos, para que a coisa funcionasse bem e aí é preciso saber muito bem o que se quer porque como é evidente não é possível ir buscar grandes recursos humanos para todas as áreas do turismo.

Devido à crise, e esta semana foi possível saber isso com a apresentação do relatório do Observatório de Emprego, o reitor apanha uma universidade que também forma gente para o desemprego. Essa é um dos dramas da vida universitária neste tempo?

Eu já o fiz em público mas gostava de o fazer novamente que é agradecer a todos os membros do Observatório de Emprego, muito em particular aos elementos externos que participaram neste trabalho que eu considero vital, vital para a Universidade ter uma percepção melhor do que está a fazer e das dificuldades que os seus estudantes estão a enfrentar. Os números do desemprego cresceram, há uma parte deles que são justificados pela crise porque não há emprego, julgo que há outros dados que nós não temos em conta no trabalho. Como sabe este trabalho apresenta os números em bruto, não faz nenhum tratamento estatístico, nem procura ir mais fundo na sua análise, o que se calhar era pertinente, mas a mim parece-me vantajoso que seja assim porque estes números permitem agora a qualquer pessoa fazer esse tratamento, enquanto que quando se apresentam dados tratados muitas vezes já não há como voltar atrás. Portanto, desse ponto de vista é um relatório de uma enorme transparência. Mas aponta um problema: há um crescimento significativo do número de desempregados que tem um aspecto concreto, absoluto (o número de desempregados subiu) e depois tem outro que é mais difícil de tratar que é em termos percentuais: a percentagem de licenciados na Universidade da Madeira cresceu também. E aí penso que há diversos aspectos que têm de ser tidos em conta. Por exemplo, uma das teorias que é avançada é que muitos dos estudantes que saem da Madeira para irem estudar para o continente, já não estão a regressar. Quanto à resposta do mercado de trabalho, eu não acredito que seja possível a uma universidade ter uma resposta concreta e eficaz a esse problema nunca.Por uma razão: os cursos universitários neste momento as licenciaturas são de três anos, os mestrados são de dois e um dos dados que o relatório apresenta de uma forma muito concreta é que há mais desemprego nas licenciaturas do que nos mestrados. Isto é algo que nós já sabíamos que ia acontecer e significa muito claramente que no futuro vamos ver crescer o número de mestres. O que significa que as pessoas saem para o mercado de trabalho cinco anos depois de terem entrado para a universidade e isto significa que a universidade para responder de uma forma muito eficaz aos problemas do desemprego teria de prever, com mais de 5 anos de antecedência, como é que o mercado de trabalho vai ser e isso eu não acredito que alguma vez seja possível. O que me parece que é eventualmente a solução para este problema é nós começarmos a olhar para a população universitária de uma forma um pouco diferente. Há um problema estrutural no mercado de trabalho português que por exemplo o mercado inglês não tem: o empregador em Portugal, pelo menos o mais tradicional, está habituado a associar a profissão ao curso que a pessoa tirou e depois há um conjunto de cursos novos no sistema português que as pessoas não sabem para que é que os alunos servem e o empregador tradicional vai ter a tendência para não empregar esses. Penso que é importantíssimo que as universidades demonstrem aos empregadores que essas pessoas também são competentes e esse é um trabalho de acompanhamento dos alunos que as universidades não estão habituadas a fazer e, penso eu, que está na base do sucesso de outros programas como por exemplo, o programa que nós temos com a Carnegie Mellon.

No caso da Carnegie Mellon, o estágio final é feito em equipa e com um contrato com uma empresa e parecendo que não isso põe em contacto as pessoas com as empresas, permite às empresas verem o que é que os nossos alunos sabem fazer e os resultados práticos e concretos são óbvios: que eu saiba estão todos empregados.

Em relação aos outros, se não houver este acompanhamento por parte da instituição penso que dificilmente nós conseguiremos demonstrar ao mercado, porque o mercado está a fazer uma gestão cada vez mais apertada.

Se eu tiver um lugar para o qual preciso de contratar uma pessoa que é mais técnica, existindo tantas pessoas com formação técnica desempregadas, eu naturalmente vou escolher um desses e não uma pessoa de Cultura e Organizações e se calhar faço mal. Agora, o empregador não tem obrigação de perceber isso. A universidade é que tem obrigação de o demonstrar.

Em 2010, quando numa entrevista falava da criação do Observatório de Emprego, falava na altura na possibilidade do trabalho deste observatório ser uma base para uma eventual reformulação dos cursos de 1º ciclo da Universidade. Acredita que estes resultados deste primeiro relatório poderão ser uma base para esta reformulação?

Continua a achar que é necessária uma reformulação dos cursos?Como sabe, o que os membros do Observatório entenderam era que para poderem desempenhar esse tipo de tarefas, precisavam de conhecer a situação real. Nós todos temos uma ideia, todos nós ouvimos falar há muito tempo que as universidades preparam para o desemprego e outros aspectos, e a universidade tinha também uma noção vaga do que estava a acontecer, mas não tinha dados concretos. Agora tem e penso que essa é uma informação útil que a universidade não ignorará. O que eu julgo que é importante no Observatório de Emprego, mas é como lhe digo, a importância e o impacto que isso terá no futuro não é algo que dependa de mim, logo não vou comentar, mas eu defendo como é evidente que o observatório de Emprego funcione também ao nível das recomendações e pareceres sobre os cursos existentes e aqueles que devem ser criados.

Falava há pouco no facto do mercado de trabalho não saber bem o que se passa nas universidades e em que áreas são formados os alunos e para quê são formados os alunos. Há uma crítica que se faz ao sistema universitário português e que tem a ver com a excessiva oferta de cursos… Seria de repensar o próprio sistema universitário português

O sistema universitário português, tal como a maioria dos sistemas europeus, foi desenhado para responder às grandes questões do início da época industrial em que era preciso standardizar as formações, formar pessoas muito iguais para desempenhar tarefas muito iguais. Isso mudou. E só por isso penso que mais tarde ou mais cedo os sistemas vão mudar. Temos desse ponto de vista um sistema muito rígido em Portugal. Se for ao sistema inglês ou americano, não encontra planos de curso, ora nós temos de ter um plano de curso publicado em Diário da República, que diz exactamente quais as disciplinas que tem o curso em causa, permite obviamente flexibilidade mas não encoraja. Portanto temos um sistema que é muito rígido desse ponto de vista. De qualquer modo, julgo que o grande problema aí não está nas universidades virem a oferecer formações muito diferentes daquelas que estão a oferecer agora. Por exemplo, se perguntar à Universidade da Madeira se ela pode oferecer curso de Direito é óbvio que não pode. Mais, as universidades não podem protelar muito esse nível. Como eu lhe disse há pouco, um curso universitário desde que um aluno entra até ao momento em que sai em condições para trabalhar são tipicamente cinco anos, portanto eu só sou capaz de avaliar um curso universitário ao fim de cinco anos, mas francamente, ninguém avalia um produto pela primeira edição apenas, logo, um curso universitário devia durar pelo menos uns 10 anos, para poder ser bem avaliado. As universidades não podem andar todos os anos a mudar as suas carteiras de cursos senão nunca são capazes de se avaliar. Portanto penso que a esse nível nunca poderemos ir mais longe do que se está a ir. O que me parece que é importante é ao nível da formação, ao nível da forma como nós abordamos os nossos estudantes e os preparamos para o mercado de trabalho, há muito trabalho a fazer sobretudo no interface com as empresas, na colaboração, na realização de estágios, na participação e no diálogo entre os empresários e os docentes universitários, aí é que eu penso que há grandes transformações a fazer.

Há outros dois dramas que marcam também o seu mandato que é um claro abandono escolar devido à crise e falar de crise é falar de financiamento…

Em relação ao abandono escolar, tal como em relação ao desemprego, o facto da Universidade não possuir números do passado pode nos levar a acreditar que a situação mudou radicalmente. Na realidade não mudou assim tanto. Sempre houve abandono no sistema universitário e ele andou sempre à volta dos 5, 6%. Portanto, a situação não mudou muito significativamente desse ponto de vista. O que começou a acontecer mais foo haver alunos que não querendo abandonar, não eram capazes de pagar as propinas. Isso é um problema complexo porque em Portugal, de acordo com a nossa legislação, se um aluno não pagar as propinas, não tem sequer o direito a receber o diploma e qualquer certificado. Portanto. Há aqui questões complexas que se punham e que a Universidade procurou resolver, sendo a primeira do país a criar um plano especial de pagamento de dívidas. Neste momento não lhe posso dar o número certo, mas posso dizer que sim, que o número de pessoas que aderiram a este programa está a crescer. Mas eu julgo que há um agravamento, sim, mas não é uma situação radicalmente nova. Sempre houve abandono do sistema.

E em relação ao financiamento?

O financiamento como é evidente é um dos grandes problemas do sistema universitário português. O nosso financiamento cresceu ligeiramente no ano do contrato de confiança, mas excluindo esse pico anómalo, tem vindo a descer de forma drástica. Isso claramente levanta um problema muito complexo ao sistema que eu francamente não acredito que venha a ser resolvido. Aquilo que me parece é que nos sistemas europeus, o financiamento e a intervenção dos estados nas universidades vai ser cada vez mais reduzido. O que quer dizer que as universidades vão ter de encontrar outro tipo de solução. Nós o que fizemos, ao perceber que tínhamos aí um sério problema, o rigor que já tínhamos introduzido na gestão, levá-lo ainda mais longe. O que eu lhe posso dizer é que a Universidade conseguiu apesar de tudo terminar 2012 com um superavit. Nós não temos défice, não temos dívidas, não temos pagamentos em atraso, portanto a situação desse ponto de vista está assegurada. O que acontece, obviamento, é que a universidade não tem quaisquer condições para investimento e esse é um problema grave, sobretudo se quiser avançar, como lhe disse há pouco, com novas iniciativas tão ambiciosas como a do turismo.

As pessoas têm de compreender que uma educação de qualidade tem custos elevados e esses custos não podem depender unicamente do Estado.Aí poderia haver parcerias, protocolos, programas especiais… Se o Estado não pode avançar com esse maior investimento, por onde podem passar as soluções?

O que eu lhe posso dizer é que um dos modelos que hoje em dia parece estar a se tornar mais popular é o modelo do financiamento directo, em que Estado financia o aluno e não a instituição, ou seja o aluno recebe esse financiamento do Estado e depois escolhe a instituição para onde quer ir e entrega esse financiamento. Esse é um modelo que é usado por exemplo na Austrália, que significa aquilo que eu dizia há pouco: que há uma tendência cada vez mais clara em que os Estados se desvinculem dos sistemas universitários. Significa que no essencial no Orçamento de Estado não há um Orçamento para as universidades, o que há é um financiamento aos estudantes. Essa é uma via que geralmente está associada a um sistema de empréstimos bancários que como sabe já existe em Portugal, embora me pareça que não tenha grande adesão. A outra via é a dos sistemas públicos assumirem os custos dos estudantes e essa via tem um problema grave. Uma vez que os Estados têm cada vez menos dinheiro, aquilo que é possível assegurar não chega para uma formação universitária sólida e de qualidade. O sistema português tem neste momento um financiamento médio anual de 4 mil e tal euros por aluno. Se pensarem que o sistema universitário britânico fixa a propina do estudante em 9 mil libras, que é mais de 10 mil euros, começamos a perceber que existe uma diferença significativa, que não está só nos salários porque os professores universitários ingleses não têm salários muito diferentes dos nossos, mas está na capacidade que as universidades depois têm para desenvolver novas iniciativas, ter melhores laboratórios, melhores instalações, etc. Portanto há aqui um problema que eu francamente não sei como se resolve. Não acredito que o Estado português queira voltar atrás e a financiar novamente da mesma forma ambiciosa as suas instituições. Naturalmente julgo que o caminho que vai ser seguido, não estou a defendê-lo nem sou contra ele, é o caminho da responsabilidade individual e das famílias vir a crescer no futuro…

O que é uma tarefa complicada neste cenário de contenção…

É evidente. Ainda há pouco tempo, a propósito do recente relatório do FMI me perguntavam se eu concordava por exemplo com a ideia de duplicarmos o valor das propinas. É evidente que neste momento eu acho que não, as pessoas não comportam neste momento esse aumento das propinas, isso é óbvio.

Já uma vez nos disse quanto precisava a UMa anualmente para viver bem…

Nós só para salários precisamos, eu não tenho os números certos, mas andará à volta de 12 milhões de euros por ano. Se quiser funcionar bem, ponha em cima pelo menos mais 3 ou 4 milhões…

Uma das suas bandeiras foi a internacionalização, a esse nível o que lhe soube a pouco, ou seja, onde poderia ter ir mais além?

Eu vou começar por lhe dizer o que me soube a muito. Nós partimos com uma vantagem que eu julgo que é justo tornar claro. O apoio que nós demos à iniciativa do M-ITI e às iniciativas do professor Nuno Nunes foi totalmente correspondido. É uma iniciativa de uma enorme qualidade, uma das bandeiras da universidade e que a projecta quer no todo nacional, quer no todo internacional e que nos ensina também como devemos agir nesse campo. E portanto, se quisesse até nós tínhamos um padrão de funcionamento para seguirmos. Nós conseguimos associar a isso, com o mérito que é preciso reconhecer do Banco Santander, as cátedras Santander, das quais uma foi lançada e a outra está em estudo neste momento, que nos permitiu trazer para a Madeira um professor chinês, através de um concurso internacional, da Universidade de Hong Ua, com a qual se celebrou naturalmente um acordo de parceria na altura e que já tem efeitos concretos no terreno. Nós lançamos há muito pouco tempo um mestrado em Nanotecnologias, que começou a funcionar agora, com uma vastíssima maioria de estudantes estrangeiros, alguns deles oriundos da China. Portanto isto demonstra que é possível fazer. Agora, o que é que correu mal? Eu gostava de ter feito isto em mais duas ou três áreas. Gostava por exemplo de ter avançado na questão das energias. Não foi fácil porque aí novamente há questões de definição do que é que se pretende. Por exemplo, eu que não sou especialista em energias, visitei na altura uma série de instituições que poderia vir a colaborar connosco como a Universidade de Strathclyde na Escócia e uma das coisas que me disseram lá era algo que eu ignorava totalmente e que era mesmo que nós viéssemos a ter um centro de energias, na área das novas energias e renováveis, a peça-chave de um centro nessa área é uma pessoa das energias clássicas. Isso era uma coisa que eu ignorava completamente. Porque? Parece que o problema técnico mais complexo é a integração das novas energias nas redes clássicas… O que eu digo é que se uma pessoa quer avançar nestas áreas tem de definir muito bem aquilo que se pretende e encontrar uma simbiose entre aquilo que se pretende e aquilo que já tem e isso no caso das energias não foi muito fácil. Há trabalho no terreno que está a ser feito e que é significativo, mas que ainda não atingiu esse patamar… Mas eu aí gostaria de ter avançado e depois, como lhe digo, embora aí as desculpas sejam perfeitamente aceitáveis, na área do turismo, onde eu gostaria de ter avançado com qualquer coisa, mas não foi possível.

Vai regressar ao seu trabalho enquanto docente da Universidade?

Vou fazer exactamente o que fiz há dez anos: sou professor da Universidade da Madeira e com toda a tranquilidade e serenidade voltarei ao meu local de trabalho com todo o gosto.

A Universidade hoje está a salvo de apetites políticos?

Eu acho que curiosamente e acho que esse é um dos problemas mais peculiares nestes anos em que tenho vivido aqui. Acho que, eventualmente com a excepção dos primeiros anos de montagem da universidade, a universidade sempre esteve imune a esses problemas. Pode não parecer de fora mas a universidade sempre tomou as decisões que entendia dever tomar, nunca teve nenhuma intervenção nem do poder político regional, nem do poder político nacional. É uma zona onde, a evidência que eu tenho, é de total independência disso. Ideologicamente o Professor Carmo e eu somos muito distintos, outras pessoas da Universidade têm outras orientações políticas e isso nunca nos impediu de sermos amigos, de conversarmos, de discutirmos o futuro da universidade. Temos posições diferentes? Temos. Muito diferentes e naturalmente elas estão associadas a essas questões, mas não me parece que alguma vez a universidade tenha sido vítima desse tipo de processos, ao contrário do que muitas vezes se pensa.

A Universidade é bastião da independência?

Vamos lá ver, eu não gostava que este meu diagnóstico significasse que nós construímos uma espécie de muralha e estamos lá dentro. Não é nada disso. A muralha não existe, não tem necessidade de existir e a universidade continua a funcionar com toda a liberdade e toda a capacidade de decisão que tem e julgo que isso é claro ao longo deste mandato.

Julga que é também por isso que hoje a Universidade é mais acarinhada pelos madeirenses?

Se me perguntassem qual foi o maior mérito deste meu mandato, julgo que ele está aí. Julgo que a imagem da universidade mudou muito, que a universidade está mais próxima da Região e, permita-me esta vaidade, acho que a Região gosta mais da Universidade, as pessoas gostam mais da universidade hoje do que gostavam há quatro anos e essa é uma coisa que me deixa muito contente.

 

Entrevista de Ricardo Miguel Oliveira e Ana Luísa Correia, (20130202) ao Reitor da UA, Castanheira da Costa, em www.dnoticias.pt/impressa/hemeroteca/diario-de-noticias/367907-entrevista-a-castanheira-da-costa-reitor-da-uma-JPDN367907