O Jornal Económico pediu a personalidades de diferentes quadrantes da sociedade portuguesa para projetarem as suas expectativas e ambições para o próximo ano. Leia aqui a de João Gabriel Silva, Irene Flunser Pimentel, Xavier Rodríguez-Martín, Miguel Tiago, Sebastião Feyo de Azevedo e Carlos Zorrinho.

“Uma afirmação ainda mais forte”

João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra

Em 2018, estou certo, a caminho de afirmação global da Universidade de Coimbra vai ser ainda mais forte. Teremos mais estudantes estrangeiros, mais investigadores e professores estrangeiros, mais financiamentos europeus e internacionais. Os nossos níveis de qualidade no ensino, na investigação e na extensão subirão mais uma vez, em comparabilidade internacional.
A nível interno espero que o Governo cumpra o contrato que assinou com as Universidades, garantindo-lhes estabilidade orçamental e dando-lhes mais autonomia para conseguirem obter pelos seus meios o que o Estado não consegue pagar. As Universidades recebem todos os anos do Estado cerca de 700 milhões de euros, mas angariam 600 milhões de euros em receita própria. Não é possível ter este nível incrível de receita própria sem liberdade de ação. Não podemos ser tratados como se fossemos meras repartições administrativas.
A nível da procura interna espero que o número de candidatos ao ensino superior estabilize, pois o número de jovens com 18 anos vai ser em 2018 muito próximo do de 2017, num compasso de espera antes do início, em 2019, do enorme declínio populacional, a cerca de 2% ao ano, que vai afetar brutalmente o sistema de ensino superior em Portugal no próximo decénio.

“2018, ano de muitos perigos”

Irene Flunser Pimentel, historiadora

As perspectivas para um novo ano são sempre uma mistura pessoal de desejos e receios, com uma vontade – não sucedida – de moldar a realidade transformando em tendência uma sugestão. São sugestões, desejos e receios que aqui apresento, misturando-os com efemérides de eventos passados, à boa maneira da História.
Em Portugal, desejo o aprofundamento dos bons resultados e a continuação do restabelecimento de rendimentos, sem que o optimismo se transforme em excesso de consumismo e de contracção de dívidas. A nível político, o desejo é que não se caia nem em presidencialismo, populismo, racismo ou xenofobia em Portugal e que os 60 anos do terramoto provocado por Humberto Delgado, nas eleições de 1958, sirva para pensar tais questões. Espero ainda que não se repitam os fogos assassinos e que 2018 seja um ano de reconstrução.
A situação nacional está interligada com a europeia e global e, num mundo enxameado por populistas, extremistas de direita, xenófobos e racistas, desejo que se assista, na Europa, a um reforço do acolhimento de refugiados e da união política, a par da derrota das derivas autoritárias na Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia.
Dez anos após a nomeação de Barack Obama como primeiro candidato negro para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, no ano da crise financeira de 2008, e de Vladimir Putin para primeiro-ministo da Rússia, 2018 continuará turbulento. Não só ocorrerá a eleição prevista deste último na presidência da Rússia, como será o segundo ano da chegada de Donald Trump à presidência dos EUA. Não haverá comemoração dos acordos de Camp David, estabelecendo o quadro para a paz no Médio Oriente, pois a região acaba de ser de novo incendiada com o reconhecimento de Jerusalém enquanto capital de Israel, por Trump. As atitudes de beligerância deste face à Coreia do Norte e ao Irão, bem como de apoio à Arábia Saudita, lembrando aspectos das guerras mundiais e da guerra fria, não auguram nada de bom para 2018, onde a única esperança é que os norte-americanos o consigam derrubar.

“Desafio não é predizer o futuro, mas gerir a mudança”

Xavier Rodríguez-Martín, empresário

Chega essa altura do ano em que, apesar dos tradicionais insucessos, transformamo-nos em meteorólogos sociais e adentramo-nos na selva do futuro armados em sherpas informativos.
Embora encaremos 2018 com as contradições habituais e com incertezas muito superiores às habituais, é possível antecipar alguns assuntos que, muito provavelmente, irão condicionar a nossa agenda.
No âmbito geopolítico, os Estados Unidos insistirão em exportar instabilidade para o resto do mundo; Portugal continuará a surfar as ondas com boas estórias e a Catalunha cronificará as suas disputas tabernárias.
No âmbito tecnológico, as grandes multinacionais consolidarão o domínio do seu modelo do capitalismo cognitivo através da aceleração da inteligência artificial, alavancada num manancial crescente de dados para o qual todos contribuímos gratuitamente, o que nos levará a enfrentar novos dilemas éticos para os quais não estamos ainda preparados.
Perante a volatilidade e a intensidade destas mudanças, o desafio será dotar-nos de doses reforçadas de pragmatismo para gerir um presente desafiante sem pensar demasiado no futuro. E reforçar também a nossa dimensão humanista porque é nessas incertezas e complexidades que os valores e a filosofia conseguirão orientar-nos melhor.

“Ano de agudização das contradições”

Miguel Tiago, deputado do PCP

2018 será um ano de agudização das contradições entre o interesse nacional e o projecto capitalista, à escala nacional e da União Europeia. A cada mês que passa, mais evidente se torna a incompatibilidade entre as regras da União Europeia e a felicidade dos portugueses. O país permanece num rumo pleno de limitações e constrangimentos. A correlação de forças no parlamento resultante das eleições de 2015 não dá ainda resposta a alguns dos aspectos mais importantes da vida dos portugueses. Apesar da importância de alguns passos na reposição de direitos que haviam sido roubados aos trabalhadores, o país continua confrontado com a ditadura financeira e orçamental imposta pela União Europeia e livremente aceite pelo Governo PS, bem como continua exposto à voragem dos grandes grupos económicos que praticamente monopolizam alavancas fundamentais da economia. 2018 será, como 2017 e mais, um ano de luta dos jovens, dos trabalhadores e dos pensionistas porque só essa luta pode resgatar a soberania nacional, reconstruir a democracia e valorizá-las nos seus principais vectores: social, cultural, económico e político.

“Capacidade de regeneração e esperança”

Sebastião Feyo de Azevedo, reitor da Universidade do Porto

Tenho expectativas fortes de melhoria da qualidade de vida dos portugueses, pensando não só em indicadores de remunerações, de emprego e de educação, como também no fortalecimento do bem-estar social decorrente do fortalecimento da solidariedade social sentida.
2018 será influenciado por um 2017 fortemente bipolar: por um lado com acontecimentos nacionais trágicos que de forma violenta colocaram a nú, uma vez mais, a debilidade do nosso sistema público e a premência da sua reforma; por outro, com indicadores de uma evolução económica e social, reconhecida no plano internacional, que estando ainda longe da que podemos e devemos conseguir, ainda assim representam sinais fortes da nossa capacidade de regeneração e consequentemente de esperança no futuro.
Neste quadro, escolho três prioridades/expectativas para 2018: (i) a reforma do sistema público, claramente não feita pela dificuldade de vencer a resistência das forças corporativas que o dominam; (ii) a luta contra a corrupção pública e privada responsável pelo consumo e esbanjamento de muitos dos nossos recursos; (iii) a contribuição ativa para a estabilização do modelo social europeu, desta forma contribuindo para a regeneração da Europa.

“Ano de definições na Europa”

Carlos Zorrinho, eurodeputado

Antecipar o futuro é um exercício cada vez mais difícil. A única forma pragmática de antecipação é sermos protagonistas desse futuro. Ele será o resultado daquilo que todos e cada um de nós fizermos acontecer.
No plano global, prosseguirá a desordem ordenada, que nos conduzirá a um novo patamar, mais ou menos fluído, nas relações internacionais. A aceleração tecnológica pode conduzir à aceleração das desigualdades e dos conflitos ou abrir portas de esperança para novas soluções. Veremos quem ganha o braço de ferro. É importante cuidar dos bens supremos da paz e da liberdade.
No plano europeu, deverá ser um ano de definições. Depois de um tempo em que se discutia se a União Europeia tinha futuro, passou-se a um tempo em que se discute o futuro da União Europeia. É uma mudança significativa mas que não garante nada. Podemos recuar, não sair do mesmo sítio ou dar um passo em frente na linha da convergência interna e da competitividade externa do modelo europeu. Vale a pena lutar pela última hipótese.
No plano nacional, será um ano de consolidação de uma estratégia de desenvolvimento, que combina o rigor, o empreendedorismo, a criação de condições para o investimento e o reforço das respostas sociais. É uma estratégia ousada, que exige grande equilíbrio e ponderação. Não pode falhar e, como País, todos ganharemos se for um sucesso.

 

Um artigo da redação (20180101) em http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/especial-2018-as-opinioes-dos-protagonistas-iv-250450