No inicio do mês, os peritos da OCDE em conjunto com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e com o Ministro da Economia, apresentaram as conclusões do relatório que estiveram a elaborar ao longo dos últimos meses sobre o ensino superior, a investigação e a inovação. Se tivéssemos de resumir as conclusões a um único parágrafo, diríamos que temos de ensinar diferente, de investigar diferente e de fazer verdadeira inovação.

Vejamos: O foco foi posto no facto dos Politécnicos virem a ministrar doutoramentos; é um importante acontecimento, que levará ainda tempo para se concretizar, mas que mudará o panorama do ensino e da investigação em Portugal, por várias razões: primeiro, porque tal acontece, tendo por base um aumento da exigência das condições para lecionar doutoramentos, o que, pode acabar com alguns dos doutoramentos existentes, fazendo com que apareçam outros; segundo, porque este aumento da exigência, vai obrigar a que as instituições se juntem para poder cumprir as regras e poderem assim chegar às condições necessárias para ministrar o doutoramento; terceiro porque ao pretender que se façam doutoramentos mais em processo de trabalho e de investigação e menos em sala de aulas, vem colocar em causa a recente adoção dos programas doutorais em sala de aula, com o lecionação de conteúdos, muitas vezes de irrelevante utilidade para a obtenção de um doutoramento. Um doutoramento deve ser um exercício de investigação de grande envergadura, que não tem necessariamente de passar pela sala de aulas. Em suma, os Politécnicos estão agora no mesmo patamar das universidades e naturalmente a distinção deixa de ser politica para ser de competência. A contestação que sempre foi feita a esta possibilidade advém de duas razões: o discurso ignorante de alguns opinion makers, que nada sabem sobre o Politécnico e que tendem a generalizar a incapacidade de alguns: Nem todos os Politécnicos são incapazes, nem todas as Universidades são capazes. A competência que os Politécnicos já detém sobre os produtos e o conhecimento que advém da sua proximidade e inserção territorial, podem e serão uma mais valia para doutoramentos práticos, aplicados e geradores de valor. A outra razão é a da baixa produtividade científica dos Politécnicos: Esta é parcialmente verdade, mas ela advém do facto de não haver doutoramentos nos Politécnicos, pois sãos eles (os bolseiros de doutoramento e de pós-doutoramento) os principais responsáveis pela investigação e pela publicação, nas instituições de ensino. Uma nota final neste assunto, para referir a importância das empresas perceberem, que é necessária a sua colaboração financeira e logística, para de forma empenhada poderem ter melhores quadros, que os ajudarão a melhorar processos, a gerar melhores produtos e serviços, e a aligeirar custos. A investigação realizada pelas instituições de ensino superior pode aumentar o valor acrescentado dos produtos e serviços das nossas empresas. Os Politécnicos têm massa crítica e conhecimento e competência para fazer mais, para fazer diferente, para fazer o que é preciso para desenvolver Portugal no seu todo e cada região especificamente pela sua proximidade à economia local.

Mas a adoção das medidas do relatório da OCDE, fará mudar muito mais. Outra importante mudança é a redução dos Mestrados Integrados, ao cumprimento das diretivas europeias, libertando os estudantes para poderem fazer licenciatura numa instituição e mestrado noutra. Mais uma vez esta medida, vem colocar em causa a capacidade das instituições, para “segurarem” os seus licenciados, para a prossecução de estudos e vem abrir a concorrência nos segundos ciclos, permitindo que os estudantes possam procurar formações mais adaptadas, eventualmente mais especializadas aos seus objetivos profissionais. É salutar que as instituições tenham de ensinar o que os estudantes e as empresas precisam e não cursos estandardizados, muitas vezes afastados das necessidades de inovação de quem garante o emprego dos diplomados. Esta medida pretende cursos de licenciatura que, configuram um patamar profissional como já acontece no Politécnico e Mestrados que não serão feitos por obrigação, mas com o objetivo de melhorar conhecimentos, especializar ações e desenvolver competências. Esperamos que o sistema saiba reagir, adaptar-se, fazer melhor e não apenas contestar.

Outra das medidas é a adaptação do ensino à educação de adultos, ou dito de outra forma, à formação de trabalhadores. Importa que sejamos capazes de organizar o ensino de forma que, os que trabalham que têm horários para cumprir possam estudar, ou voltar a estudar, qualificando-se, qualificando o País e adquirindo competências que para isso contribuirão. As instituições de ensino e as empresas, têm também aqui de encontrar entendimentos, que possam gerar oportunidades para se desenvolverem e para criarem conhecimento e inovação.

O que fica dito, só é possível de as instituições de ensino modernizarem o seu pensamento, se colocarem do lado da solução e não se limitarem a contestar a mudança, adotando comportamentos de proteção e conservadorismo, que deixarão tudo na mesma e manterão Portugal, como um destino pouco atrativo para quem quer estudar, investigar e inovar.

Jorge Conde, Presidente do Politécnico de Coimbra

https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/o-foco-do-ensino-superior-tem-de-mudar/, em 20180220